SOBRE A REVISTA VEJA
Qualquer possibilidade de representação da realidade é sempre insuficiente frente às
relações que definem a sua complexidade. Nesse nível, a pesquisa ou a estatística também são
parciais e incompletas e podem mascarar ou mesmo distorcer a realidade.
Essa situação pode ser observada num conjunto de matérias que a Revista Veja publicou no
último dia 20 de agosto, a partir de uma pesquisa realizada pela CNT/Sensus, que procurava, entre
outros aspectos, identificar o preparo dos professores e o compromisso dos pais e alunos frente ao
processo educativo brasileiro. De imediato, a pesquisa demonstra certa confiança das partes frente
ao que a escola tem veiculado. Os exemplos apresentados, inclusive, dizem respeito a Instituições
muito bem conceituadas (do ponto de vista das avaliações de cunho nacional), o que reforça a idéia
de um princípio educativo comprometido com uma visão mais questionadora da realidade
presente. É justamente uma possível criticidade da população jovem brasileira que incomoda os
propositores das matérias, transformando-os em “papagaios de piratas da ditadura militar”. Não se
trata de ofensa barata e sim de constatação básica: “com a justificativa de incentivar a cidadania,
incutem (os professores) ideologias anacrônicas e preconceitos esquerdistas nos alunos.” (...)
“Eles exemplificam uma tendência prevalente entre os professores brasileiros de esquerdizar a
cabeça das crianças” (...) Os professores esquerdistas veneram muito aquele senhor (Karl Marx)
que viveu à custa de um amigo industrial, fez um filho na empregada da casa ...” Outras tantas
poderiam ser apresentadas, talvez textos inteiros. Os dados da pesquisa servem para ilustrar um
posicionamento político explícito e de direita, apesar da defesa constante da necessária
neutralidade na veiculação do conhecimento, ou melhor, na apresentação de conteúdos.
A concepção de educação explicitada pelas reportagens denota uma verdadeira falta de
preparo para lidar com a questão pedagógica, visto que considera a transmissão do saber como
única possibilidade de formação para o mundo do trabalho, desconsiderando a complexidade das
relações sociais que interferem nas atuais dinâmicas laborativas. Por outro lado, o texto da Revista
Veja faz uma crítica vulgar a um educador brasileiro – Paulo Freire - que elaborou uma proposta
de alfabetização de adultos de alcance internacional, e que conseguiu sensibilizar programas
educacionais de vários países pobres da África, como a Guiné Bissau por exemplo. Esse ataque
pareceu muito mais desespero do que uma crítica com o mínimo de fundamento. E por que tanto
desespero?
Parece que as reportagens procuram evidenciar uma situação caótica como condição para
uma mudança de rumos da educação no país. “A reportagem que se vai ler pretende chamar a
atenção (...) e contribuir para que os pais, professores, educadores e autoridades acordem para
uma dura realidade...” (...) A pesquisa realizada pela CNU/Sensus e publicada nesta VEJA marca
um verdadeiro divisor de águas na história da discussão educacional brasileira.”
Já faz algum tempo que a Revista vem se colocando a favor das mudanças na educação,
promovidas pelo Governo do Estado de São Paulo. Essa situação define uma “estranha” parceria
entre Estado e iniciativa privada. Várias matérias têm sido destinadas à divulgação do discurso
oficial da Secretaria da Educação. A título de ilustração, recentemente a Secretaria da Educação do
Estado de São Paulo produziu material didático, denominado “Propostas Curriculares dos
diferentes componentes disciplinares”, que expressa um alto grau de regulação e prescrição. A
resistência dos professores frente a essa determinação desencadeou manifestações públicas, na
tentativa de denunciar esse projeto de controle curricular. Tais manifestações foram entendidas
como “expressões da inquisição ou do nazismo”, na interpretação da Revista Veja nº 2056. Na
reportagem denominada “Fogueira ideológica”, a revista ressaltava que os professores, com essas
manifestações, rejeitavam ser controlados pelo Estado, e isso se apresentava como verdadeiro
absurdo na visão da jornalista Camila Pereira, autora também dessa última matéria.
O fato é que seguramente a Revista Veja, ou mesmo a Editora Abril, está assumindo uma
posição política explícita a favor de uma educação tecnológica vulgar, que superficializa o
conhecimento e adestra trabalhadores para a industrialização flexível, própria dos países mais
pobres do planeta. De toda maneira, se a educação brasileira é ruim e os professores mal
preparados, isso é produto de um processo histórico, no qual, entre outros aspectos, ganha
significado o descaso do setor público de educação superior com a formação dos professores,
possibilitando o crescimento estrondoso do setor privado, que, como sabemos, nunca teve um
projeto consistente para os cursos de licenciatura. . Em São Paulo, 90% dos professores que atuam
na rede pública estadual são egressos de instituições privadas de ensino superior e essa situação
não é analisada pelas revistas da Editora. Não interessa porque atinge diretamente interesses
econômicos capitalistas e qualquer crítica, a esse quadro, pode ser identificada como
“esquerdista”.
A Associação dos Geógrafos Brasileiros - AGB - entende que a análise elaborada pela
Revista carece de referenciais consistentes e repudia o conteúdo da reportagem, salientando que
não é possível uma educação neutra porque a atividade educacional possui essencialmente uma
dimensão política. Nesse sentido a escola se constitui como território, como campo de disputa
ideológica, e o professor está no olho do furacão.
Profª Núria Hanglei Cacete e Profº Luis Fernando de Freitas Camargo – representantes do
GRUPO PERMANENTE DE TRABALHO SOBRE FORMAÇÃO DE PROFESSORES E
ENSINO DE GEOGRAFIA – DA ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS -
AGB
NOTA
Nós, professores de Geografia estamos indignados com a reportagem da Revista Veja, de 20 de agosto,
que trata de forma leviana e irresponsável um dos mais sérios
problemas sociais que temos enfrentado e que diz respeito a difícil situação da educação
no país. É lamentável e temerário que um veículo de comunicação trate de algo tão sério
com tamanha irresponsabilidade. Assim como o manifesto produzido pela CNTE e pela CONTEE,
declaramos nosso repúdio à Revista e reiteramos nosso compromisso com a luta pela
educação como direito e como bem público mais importante de que dispomos.
ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS - AGB
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
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